Elites e Povo
Então numa dessas conversas inúteis sobre caracteres nacionais, eu teci comentários ligeiramente desairosos sobre o povo venezuelano, tendo recebido a clássica réplica esquerdista de que defeito x e y eram típicos da elite e não do povo.
O Brasil marcou mais um gol e a conversa terminou por aí. Mas eu sempre me admiro com a prevalência de certos conceitos, aceitos de forma acrítica por todos. A idéia de que os países têm uma elite de características e personalidade fundamentalmente distinta do povo não tem muita base na realidade. Somente naqueles poucos países em que a classe dirigente é completamente isolada do resto da população, cultural e socialmente, é possível ter uma elite que seja diferente do povo, da mesma forma que uma colônia de estrangeiros só mantém grandes diferenças na medida em que permanece isolada. Nos dias de hoje, em que a formação cultural e social é, em grande parte, determinada por meios de comunicação em massa, o isolamento de uma elite é praticamente impossível.
Na base desse discurso, existe, como não poderia deixar de ser, uma propaganda política. Se os problemas de um país são causados por uma elite, um grupo político que consiga fazer acreditar ser representante do “povo” pode abarcar todo o poder e negar à oposição legitimidade para atuar. Entretanto, com o tempo, tende a se comportar exatamente como a elite anterior no poder. A razão é que a elite é igualzinho ao povo, só que com poder e dinheiro. A mudança dos grupos, sem alterar a forma de pensar e agir, equivale a mudar os atores de uma peça e manter o roteiro.
Acreditar que o povo no poder mudaria fundamentalmente a forma de conduzir o país é uma das utopias pós-modernas mais estúpidas, até porque negadas repetidamente pela História recente. Mas a esperança na solução simples é sempre demasiado sedutora para ser ignorada. E depois reclamamos da traição dos novos ocupantes do poder. Para que o ciclo continue.