I AM EVIL - UOL Blog
Lendo: Three Soldiers, de John dos Passos
Acabei: Collapse, de Jared Diamond
 
 

Chegou o Natal. E passou o Natal.

 

            É feriado em toda a Alsácia nos dias 25 e 26 de dezembro. Havíamos planejado esquiar no Lac Blanc dia 25, mas o sono jiboiento pós-ceia de natal gigantesca nos fez ficar aqui em baixo mesmo. Andamos mais por Colmar, onde até os mercados de natal fecharam no dia de natal - em uma dessas contradições do mundo. Descobrimos um restaurante muito gostoso na Place de la Ancienne Adouane, um dos poucos abertos, chamado La Musardière, recomendável para todos que passem por aqui. Fora isso, descansamos e curtimos não ter agenda.

            No dia 26, fomos finalmente até o Lac Blanc, mas acabamos não esquiando. Deixamos os nossos equipamentos de esqui em Paris e os preços de aluguel são muito salgados. Além disso, com o feriado, estava lotado demais e desanimamos. Vimos as redondezas, descemos, abrimos o nosso guia de "villages de charme" e escolhemos uma corrutela, como diria a Carol, entre a estação e Colmar. A selecionada foi uma cidadezinha de 600 habitantes, chamada Niedermorschwihr (diga isso rápido três vezes), provavelmente a maior relação de letras no nome da cidade por habitante existente no mundo. Comemos surpreendentemente bem para uma cidade que é, basicamente, um pequeno núcleo de apoio para vinhedos intermináveis. Mas o post sobre comida deverá vir mais tarde.

            Voltamos, ficamos um tempo no hotel e saímos para ver os mercadinhos de natal pela última vez, já que eles abriam hoje. E fazia frio. Muito frio. Deixamos até a Frida em casa de pena da pobre. Temperaturas negativas, um dia luminoso e ensolarado, mas as mãos geladas dentro das luvas. Mas é sempre lindo andar pela cidade. Mesmo quando passa por nós, no meio da rua, alguém correndo de short e camiseta (já mencionei que fazia frio?) com uma lanterna na cabeça. E depois um segundo, com mais roupa, mas também correndo. E um terceiro. Todos com uma lanterninha na cabeça. Pensei que fosse a procissão dos fantasmas dos trabalhadores de minas de carvão da região, mas era só uma gincana. Quem faz gincana nesse frio? Comemos bobagem de mercadinho de natal (sanduíche de foie gras é comida de mercadinho por aqui), visitamos uma igreja do século XIV e nos despedimos. Amanhã tem mais estrada, mas ainda não voltamos para casa. Novas paradas previstas. Continuem ligados.

 
 

Noite de Natal

 

            Sobre a noite de natal, não há muito que dizer. Comemos em um restaurante típico, cinco pratos (seis contando a cesta de frutas da estação). Incluindo o foie gras que é tradicional nesta época (eu adoro a França nessas horas). Perto do restaurante estava prevista uma missa do galo em uma igreja do século XIII. Estava considerando superar meus preconceitos somente pela igreja, mas no fim mesmo a católica da família não estava suportando o frio abaixo do zero e voltamos. Mas foi uma noite muito bonita, com cara de natal de filme. Só faltou nevar mesmo.

 
 

Subindo o Castelo

             Véspera de natal. Decidimos um roteiro mais leve, que nos permitisse passear um pouco por Colmar antes de escurecer e ver mercados de natal, comprar vinhos brancos alsacianos e conhecer mais a cidade. Fomos de manhã, ainda na onda medieval, ao fabuloso Castelo de Haut-Koenigsbourg. Com frio. Muito frio. Subimos uma estrada serpeante, no meio da neblina e depois da cidade na base da montanha, Dominique se perdeu e tivemos de confiar nas placas, old-fashioned way. Chegamos em cima com temperatura de -1º. O castelo é muito interessante, uma impressionante construção bem conservada do século XIII, com belas vistas para a região (no nosso caso, uma bela vista de neblina, tipo Brumas de Avalon).

            Descemos já era quase uma da tarde e lembramos-nos de um restaurante na Alemanha, especializado em carne de caça, que nos haviam recomendado. Com nossa Dominique de volta, chegamos a tal cidade, a dois quilômetros da fronteira com a França. Apesar da proximidade, ninguém fala nada que não seja alemão, aquela língua bárbara. E o restaurante estava fechado. Ou eu acho que estava fechado, já que eu não entendi nada do que a mulher me disse. Carol que sabe algumas palavras naquela língua esquisita comprou um biscoito muuuuuuito gostoso. Arrependi-me profundamente de não ter comprado uma tortinha de chocolate maravilhosa. Mas como eu não sabia a palavra de 89 letras que significa "embrulha para levar" naquela língua gutural, achei melhor deixar para lá. Voltamos para almoçar em Colmar, onde as pessoas falam línguas menos bizarras.

            Mais tarde teremos ceia de natal em um restaurante. Para quem está lendo isso hoje, Feliz Natal!

 
 

Passeio pela Idade Média

 

            O dia de hoje foi dedicado às cidades medievais. Há muitos vinhedos bons nessa região hoje em dia, especialmente brancos. Andamos por vários antigos burgos que já foram independentes, alemães, franceses, alemães de novo, franceses de novo. Mas o fato é que todas elas mantêm a identidade do momento de seu ápice. E todas parecem cidades de cenário.

            Primeiro estivemos em Eguisheim. A última coisa de alguma relevância para o mundo que aconteceu por lá foi o nascimento do futuro Papa Leão IX, que nasceu por ali no século XI. A primeira e a menor das três, mas fácil de andar e, como todas, uma viagem no tempo. Não fossem os turistas, claro.

            Depois fomos para a maior e mais conhecida de todas, Riquewihr. Dizem que é a quinta cidade mais visitada da França, e realmente parece. Tamanha cabeçada pela rua principal que quase tira o gostinho. Quase. Foi legal ver a muralha, as ruazinhas pequenas e o altar da liberdade de 1790. Almoçamos comida alemã ou alsaciana (mesma coisa) em um restaurante cheio de bichos empalhados, alces, javalis e outros bichos da floresta. E Dominique, nossa fiel amiga GPS, quase me faz entrar com o carro na cidade velha, de onde eu provavelmente teria problemas para sair, ou mesmo acabar preso por ameaçar lugares históricos.

            Para fechar o dia, fomos a Kaysersberg, a melhor de todas. Pena que o crepúsculo às 17:30 dessa época nos privou de uma boa visão da cidade. Mas muitas praças com casas que parecem feitas de gengibre, mercadinhos e músicas de natal. Very Christimasy. Também subimos no antigo castelo, uma torre do século XIII de onde se pode ver toda a cidade.

            Andamos muito, para chuchu à beça. Estamos mortos, desabamos no hotel depois de jantar para sair só amanhã.

 
 

Chegando a Colmar

             Chegamos em Colmar, 560 km de viagem depois. Apesar de eu não gostar de dirigir, pista dupla 99% do tempo e Dominique, nossa amiga GPS, tornaram tudo muito mais fácil. Teve muita neblina, o que prolongou o tempo de viagem. E atrasamos quase três horas da nossa previsão de partida. Mas deu tudo bem, com exceção de eu ter arrancado o espelho lateral de um carro na frente do hotel. Mas não vamos permitir que isso estrague as férias.

            Mesmo de noite, Colmar é muito bonita, cidadezinha medieval com charme e comida alemã. Demos uma volta depois da chegada, apesar do frio e da fome e é realmente bem legal. Na véspera de natal, deveremos fazer um tour comme il faut.

           

 

 

 

 

 

 

I Will keep you all posted. Enquanto o wi-fi do hotel permitir, claro.

Thank you - Led Zeppelin

             Estava hoje pensando nas coisas que eu sei que vou sentir falta quando eu sair daqui. Por ridículo que seja pensar em 2010 ou 2011.

            A primeira coisa é a Picard. Eu morei sozinho uma parte não desprezível da minha vida. Durante esse tempo eu descobri a minha completa inaptidão para a cozinha. Sempre sai alguma coisa queimada: a comida ou eu. Então eu tenho um longo relacionamento com a comida congelada e considero o forno de microondas a invenção mais importante depois da imprensa e da penincilina. E posso dizer com toda a segurança que não há nada no universo que se assemelhe, em termos de comida congelada, a Picard. É impressionante como até a comida indiana deles sai do microondas boa para caramba. Tudo bem que até o cassoulet de lata aqui é bom. O povo aqui pode não saber muito de trabalhar, mas comer e fazer comer é a especialidade. Nem vou falar dos croissants, pains au chocolat e assemelhados. Como é que eu perdi cinco quilos desde que cheguei aqui é um mistério.

            Outra coisa é comer pato no dia a dia. Ninguém nunca me explicou a razão de pato ser uma coisa tão cara e difícil de encontrar no Brasil. Não deve ser tão mais difícil de criar que galinha, convenhamos. É um pato. A única diferença da galinha é que o bicho voa e gosta de um laguinho. Aqui você encontra em qualquer lugar. E barato. Ou tão barato quanto algo pode ser em euro. E tem um pato com figo da Picard que dá para fazer fácil em casa.

            A paisagem urbana, claro. Mas isso é meio lógico.

            Também é legal poder entrar com a Frida em qualquer lugar, incluindo restaurantes e farmácias. Aliás, poder entrar não é a expressão correta. Recebemos um tratamento muito melhor quando estamos com a Frida. A Frida é muito mais bem-vinda aqui que eu, para falar a verdade.

            Shows, espetáculos e exposições deveria ser o item seguinte. Mas a gente sempre acaba enrolando, esquecendo de comprar ingresso e quando lembramos, já esgotou. Menos o The Killers de março que eu já garanti. Mas já vi que a Emiliana Torrini de janeiro está indo pelo mesmo caminho.

            Chega de exercício de ação de graças. Depois eu falo das coisas das quais eu não terei saudades...

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