Papéis
Nestes dias, uso o computador para quase tudo: do trabalho ao lazer, da procura da informação que não tenho à busca da memória perdida que um dia já tive.
Por vezes, contudo, eu me sento com papel e caneta para registrar a vida e os sonhos, para organizar a mente e para recordar.
São sempre folhas pequenas, jamais a imensidão branca de um A4. Pequenos blocos pautados para que as minhas pequenas idéias não entrem em pânico agorafóbico.
No final, quase tudo que escrevo vai mesmo para a lixeira: seja a de papéis, a do Windows, ou a mais temida de todas: o justo esquecimento do tempo.
Mas jamais esperei algo mais que a justiça das lixeiras, nem mesmo para mim. E uma das poucas esperanças que ainda me restam é a de que não se façam reciclagens do que fiz ou fui.
Por isso o papel, sua natureza frágil e pálida. Serão rasas as idéias, medíocre a crônica, pobre a poesia. Mas esse papel que as acolhe, tolerante ou indiferente, é para elas apropriado: simples e descrente, aceitando cada disparate como uma inquestionável verdade, parte do esquema das coisas, da forma excêntrica e caótica do Universo. E que depois se esvairá em alguma lixeira - que as há tantas. Talvez seja a única justiça.
Evil, but in a nice way.


