Frases de Caminhão Existencialista
Só os suicidas são coerentes.
| Lendo: | Three Soldiers, de John dos Passos |
| Acabei: | Collapse, de Jared Diamond |
Frases de Caminhão Existencialista
Só os suicidas são coerentes.
Minha mãe não deixava a gente tomar refrigerante todo dia lá em casa. Mas sempre esteve liberado o suco de groselha, feito com aquela garrafa de xarope de um vermelho radioativo. Como eu não havia visto groselha em estado natural na vida, minha mente infantil achava que era uma contradição poder beber aquilo e não um Mineirinho. Não que eu fosse apontar a contradição e me arriscar a perder a groselha naquelas tardes quentes do Rio de Janeiro.
Esses dias, muitos anos depois, já em outro milênio, eu abro a porta da minha geladeira e me deparo com um pacotinho de frutinhas vermelhas com o rótulo “zarzaparrillas”.
- Zarzaparrillas? O que é isso?
- Groselha.
- Groselha é fruta?!?
(Depois eu descobri que a tal da zarzaparrilla é, na verdade, apenas prima da groselha)
De qualquer forma, comi a tal zarzaparrilla e tive um daqueles momentos de pura epifania e lembrança gustativa, lembrando do gosto do suco da minha infância.
Passado o momento nostálgico, o adulto acordou, sentiu o gosto e pensou: “como é que eu gostava dessa porcaria quando era criança? Coisa mais sem graça.”
A gente fica velho e chato mesmo.
Noite de amigo oculto com os amigos do mestrado da Carol. Amigo oculto, sim. Eu sou carioca e amigo secreto é coisa de paulista.
Evil Quotes For The New Year
"each day demands we create our whole world over,
disguising the constant horror in a coat
of many-colored fictions; we mask our past
in the green of Eden, pretend future's shining fruit
can sprout from the navel of this present waste.
"
(Silvia Plath. The Tale of a Tub)
Música da Semana da Rádio I Am Evil
"Silent All These Years" - Tori Amos. Uma das músicas tema do blog. "I got something to say, you know. But nothing comes."
Agora a música do dia virou música da semana. Mas, em compensação, agora você também pode ouvir a música.
Acho que toda pessoa sã, mesmo quando a vida está perfeitamente no lugar, de vez em quando acorda, olha para o mundo e sonha com algumas bombas explodindo em lugares bem colocados.
Ou como disseram aqui: “Compro polônio em pequenas quantidades. Paga-se bem.”
Acho que ainda estou chocado com o comportamento dos meus vizinhos durante o funeral. Não tivesse eu tido a sorte de conversar com chilenos normais na segunda-feira, teria cortado completamente a minha extensa lua de mel com o Chile. Porque eu realmente tinha me convencido que as pessoas em geral tinham vergonha das barbaridades que foram cometidas por aqui.
Talvez eu devesse ter ido a cerimônia em homenagem ao Allende ontem. O problema é que eu acho que o Allende foi outro imbecil. Não foi um sanguinário ensandecido como o que morreu, mas um presidente é responsável pelas estupidezes cometidas pelo seu grupo político.
Enfim, o bom é que eu estarei indo para o Brasil semana que vem. Na volta, tenho esperança que o cheiro de esgoto mental perto da minha casa já terá passado.
Neste momento, o General já virou cinzas no forno. Infelizmente, ele já estava morto quando o colocaram lá dentro, mas não se pode querer tudo nessa vida.
Carol subiu ao topo do prédio para ver como seria a saída do corpo e qual seria o comportamento das raparigas filhas de um égua mal parida. Ela me telefonou há pouco horrorizada. Disse que os vizinhos do prédio estavam em lágrimas, gente com olhos vermelhos de chorar, com cartazes e por aí vai. Escalofriante, compañeros. E a cena da saudação nazista em cima do corpo do cara continua a me nausear profundamente.
Só espero que a indesejada das gentes nos envie aquele presentinho de natal que eu sugeri ontem. Sonhar (ainda) não custa nada.
Enquanto isso, um israelense foi encontrado depois de ter ficado mais de 30 horas perdido em Torres del Paine. O mané passa bem. Mas o Presidente do Irã, durante a sua conferência de malucos que negam o Holocausto, já avisou que convocará especialistas para provar que o israelense não se perdeu e que tudo não passa de uma operação do imperialismo ianque para angariar simpatias pela causa zionista na América do Sul.
Enquanto isso, na apresentação da empresa...
Toda vez que eu vejo alguém falando sobre a responsabilidade social da empresa, eu sei qual vai a ser a primeira área a ser fechada se o negócio começar a dar prejuízo.
Eu achava que a pior imagem desse carnaval insano que se instalou aqui no Chile tinha sido a do povo estourando champagne na praça. Ledo engano. Nada pode superar a capa do “La Nación” de hoje.

O universo só tem duas constantes: a velocidade da luz e a capacidade humana de ignorância e ódio.
OK, eu estava tentando ser tolerante e lances. Mas essa gritaria desses pinochetistas filhos-da-puta praticamente embaixo da minha janela já está me irritando. Especialmente porque já é meia-noite e eu quero dormir, porra! Bando de raparigas filhas de uma égua mal parida.
O Independent me saiu com um artigo hoje dizendo que Fidel estaria com câncer e poderia morrer antes do fim do ano.
Se a indesejada das gentes estiver mesmo fazendo um atacadão de fim de ano, posso sugerir, de forma respeitosa e sem querer chamar a atenção de forma alguma para a minha pessoa, outros candidatos? Todos cumprindo o perfil dos dois últimos clientes e cuja partida propiciaria um feliz Natal para todos nós. Por exemplo, na Coréia do Norte, Zimbabwe e Guiné Equatorial? Um pacote de cinco para fechar o ano? Combinado?
Eu sempre me divirto com essa mania dos hispano hablantes de traduzir tudo. Eu até já me acostumei com a Rainha Isabel da Inglaterra (Isabel para mim é só princesa), mas hoje me aparece essa chamada no jornal chileno: “Prince encabezará espectáculo de medio tiempo en el Súper Tazón de EE.UU”.
Super Tazón? O que é isso? A xícara do Super-Homem? Demorei um bom tempo até me tocar que Super Tazón é o famigerado Super Bowl. Eu sabia que algum dia eu conseguiria me divertir com o futebol americano.
Desencanto
Ao sair para o trabalho hoje de manhã, me deparei com a fila de pessoas na frente da Escola Militar que foram prestar seus respeitos ao General.
Eu sou cínico demais para me incomodar com essas pessoas. Aliás, a única coisa que me incomodou ontem foram os opositores estourando champagne na rua. A little bit too much.
Mas na América do Sul somos especialistas em rotos falando mal dos esfarrapados. Todos adoramos os “nossos” ditadores e execramos os ditadores “deles”. Nossa política parece sempre ser a rotina disfarçada de constante Armagedom, até que um idiota propõe fazer tudo de novo, em um processo em que só o pouco que funcionava vai para o lixo. Eu vejo nas ruas daqui os farrapos de duas faixas antigas com os dizeres “Sob Nova Direção”, sabendo que uma nova geração prepara mais faixas e mais picaretas para tentar construir tudo de novo. E entre ruínas e faixas permanecemos.
O General vai ser velado na Escola Militar que fica praticamente em frente ao meu prédio. Infelizmente, tive que ir ao aeroporto por motivos de trabalho (é, em um domingo) e perdi a movimentação enquanto ainda tinha a luz do dia. Depois que eu cheguei, desci até a esquina para ver o povo. Muitas pessoas com fotos do General, carros que passavam buzinando. Carol me disse que havia pessoas de esquerda mais cedo gritando o nome do Presidente deposto pelo que morreu hoje. Agora, só ouço o nome do General.
Aproveitei para subir ao topo do meu prédio (que tem 21 andares) para tirar umas fotos panorâmicas. O lugar é privilegiado, tanto que uma estação de TV também colocou suas câmaras lá. Como vocês podem ver, não é muita gente. Não sei que horas o corpo chega, mas imagino que o barulho das ruas não me deixará perder o momento.
Parece estranho que tenha gente comemorando a morte do Pinochet no centro da cidade, mas também parece meio fora de lugar o tipo de concentração que estou vendo por aqui. A impressão é de que o Chile ganhou um campeonato de futebol e não de que alguém morreu. O ambiente não combina. Independentemente da minha opinião do regime militar, eu esperava algo mais introspectivo ou reflexivo, ao invés desse grupo de pessoas que parece estar mais desafiando a indiferença de muitos e o ódio de vários.
Mas é difícil entender mesmo o Chile em alguns momentos. Especialmente a relação com essa ditadura, que no estrangeiro simboliza tudo que ocorreu de barbarismo político nessa região, mas que, aqui, tem mais nuances do que eu seria capaz ou mesmo desejaria descrever aqui.
Na verdade, estou vendo, da janela da minha casa, o capítulo final, um pouco patético por certo, de uma das mais controversas disputas políticas da América do Sul. Esta noite, o pouco que ainda restava de atual se converte em História.
In the News
Ding Dong! The witch is dead.
Agora só falta a de Havana.
Evil, but in a nice way.
My Personal Evil Priest responderá suas angústias e dúvidas nesse endereço: iamevil.blog, que fica lá no gmail. Don't be evil? Ha!
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