I AM EVIL - UOL Blog
Lendo: Mere Anarchy, de Woody Allen
Acabei: Donde van a morir los elefantes, de José Donoso
A House is not a Motel - Yo La Tengo

            Bem, o trabalho continua me desafiando e a busca pelo apartamento parisiense ideal é tão difícil quanto achar o Santo Graal. Até porque os dois, aparentemente, não existem.

            Mas achar o apartamento ideal em Paris tem suas semelhanças com o paraíso. Você chega na porta e pode ser rechaçado pelo São Pedro de volta ao purgatório das corretoras. Já aconteceu conosco duas vezes. Agora temos mais dois apartamentos aos quais nos candidatamos. Eu gosto mais de um, um pouco menor, mas com externalidades positivas interessantes. A Carol prefere o outro, maior e em uma área mais divertida, porém longe do trabalho. Decidimos não discutir o assunto para ver qual dos dois proprietários nos aceitará. Acho que assim garantiremos, pela Lei de Murphy, que os dois nos aceitarão. Não é possível ter certeza pois Murphy escreve errado com uma caneta estourada em linhas apagadas.

            Mudaremos amanhã, de qualquer forma, do apartamento provisório atual, carinhosamente apelidado pela Carol de “muquifo”, “cortiço” ou “aquele lugar horroroso e sujo cujo proprietário eu gostaria de ver balançando do alto da Torre Eiffel”. Chegamos em nosso limite e dificilmente conseguiremos mudar no fim do mês como planejado: os apartamentos estão em reforma e a mudança atrasou e só chega no fim de agosto.

 

            É isso. Os preços continuam nas alturas, a cidade continua bonita e nós continuamos sem teto.

Bones Theme - The Crystal Method

Não conseguimos alugar o apartamento que mais havíamos gostado até agora e que ficava na Avenida Emilie Deschanel, para fazer a alegria das nossas visitas fãs de Bones.

Now back to the drawing board...

We Hate It When Our Friends Become Successful - Morrissey
Recomendação de leitura sobre aquele país grande que ninguém sabe se fica na Ásia ou na Europa. Muito bom, e nem falo isso porque é escrito por uma grande amiga. Com vista para o Kremlim. Pára de ler estas bobagens aqui e vai lá.
House of Leaves - Poe

            Muito que contar, mas eu confesso que estou com a cabeça girando. Muita coisa nova que aprender no trabalho e toda uma cidade para decodificar em ritmo acelerado enquanto escolhemos um apartamento para os próximos anos. O mercado imobiliário aqui é complicado: Paris é uma cidade relativamente pequena, com prédios baixos, o que limita a oferta. Além disso, os proprietários são extremamente seletivos, uma vez que após a assinatura do contrato a lei beneficia sempre o locatário. Ser estrangeiro (sudaca) não ajuda nada, claro. Mas temos dois aps em vista e dúvidas cruéis, além das férias coletivas francesas de agosto já assomando no horizonte.

            O resultado é que não temos feito nada, absolutamente nada. Por motivos já descritos aqui e agora pela inflamação no tendão de Aquiles que a Carol ganhou de tanto bater perna vendo apartamento. Fomos ao médico hoje pela manhã, já que farmácia aqui é coisa séria: sem receita, nem aspirina. E no metrô de volta, vimos um mendigo fazendo xixi nos corredores e um rato caminhando impunemente pelas plataformas do metrô. Jolie Paris! Mas tudo faz parte do processo de entrar na vida real da cidade, que não é das mais limpas.

Apesar das recomendações médicas de repouso, andamos pelo Champ de Mars hoje, para explorar o quartier de um dos apartamentos possíveis e deixar a Frida, cachorra chiquérrima, correr na sombra da Torre Eiffel. Mas tudo que eu quero é ter um endereço para chamar de meu. Com um quarto de hóspedes para os amigos, antes que algum de vocês reclame na caixa de comentários.

La Marseillaise

            Aqui estamos imersos na modorra de um feriado longo que nos impede de buscar apartamentos. Pensamos em nos dar uns dias de turista para espairecer um pouco, mas na verdade orçamentos limitados pela perspectiva dos três meses de aluguel a pagar quando encontrarmos casa, além de nossas pernas cansadas limitam nossos movimentos.

            Mas fizemos coisas aqui e ali.Passeio no Marais, pelo bairro gay e depois pelo bairro judeu, vizinhos na contemporaneidade francesa. Pagamos uma fortuna em um restaurante de comida judia da Europa Central (erro tático forçados por uma chuva inesperada). Reforçamos alguns estereótipos sobre a sujeira de Paris, a beleza e a elegância de franceses e franceses, além da eterna surpresa da arquitetura em esquinas insuspeitadas. Comprovamos que tudo está opressivamente caro. Pequenos clichês de um domingo de sol e chuva.

            Para completar os clichês, um feriado de 14 de julho com sol, sem maiores acontecimentos. Passeamos pela Opéra e me deu saudades do centro do Rio. E voltamos para casa, porque o cansaço só aumenta com os quilômetros andados e os anos acumulados.

The Hardest Part - Blondie

            Começando nosso primeiro finde parisiense dos próximos três anos já com um feriado longo. Sweet. O resumo da semana? Vimos seis apartamentos, apenas um deles bom, mas o início do processo de busca em uma cidade nova é assim mesmo. Agora o importante é explorar vizinhanças e descobrir quais te atraem e quais te repelem. Estou aceitando o fato de que dificilmente conseguirei morar pertinho do trabalho como eu gostaria, uma vez que os lugares mais legais ficam um pouco mais longe. Tenho dores nas solas dos pés de tanto caminhar com sapatos de trabalho e até agora só vi a Paris turística por acaso, entre uma providência e outra: como abrir conta bancária perto do Arco do Triunfo ou verificar que realmente dá para ver a Torre Eiffel de muitos cantos da cidade e não só nos filmes. Mas estes momentos iniciais são normalmente os mais difíceis e já estão sendo, de modo geral, positivos, então acho que estamos bem. Até o apartamento provisório está incomodando menos, provavelmente porque saímos para a rua e estamos em Paris, o que relativiza qualquer problema imobiliário.

            O francês está pior do que eu pensava, mas tenho conseguido falar com quase todo mundo. Algumas vezes, claro, a língua trava ou a gente usa uma palavra errada e ninguém entende nada, como quando procurávamos um lugar para tirar fotos para documentos. Perguntamos onde podíamos tirar fotos e a mulher de uma loja disse “em qualquer lugar você pode tirar fotos!”. Agora a gente dá risada, mas na hora, com o pé doendo, é exasperante. O verão também anda nos iludindo, só tivemos um dia de calor e estamos quase sem roupa de frio na bagagem. A primeira noite foi um frio inesperado. Mas creio que vai esquentar a partir de agora.

            Com o fim de semana de três dias pela frente, vamos tentar fazer um pouco de turismo para distrair. E uma faxina neste apartamento horroroso, para ver se melhora um pouco nosso astral por aqui. E semana que vem mais apartamentos para ver, aparentemente melhores. Quem quer quarto de hóspedes pode ir acendendo vela para qualquer santo de sua predileção para arrumarmos um lugar legal.  

Paris - Camille
Chegamos. Mais de quatorze horas de vôo, mas chegamos. A Frida chegou meio zonza mas inteira. E o apartamento provisório é meio fraquinho, mas dá para aguentar até o fim do mês. Agora é se adaptar. Uma vez mais.
Time To Go - The Organ

            Mudar é difícil. Mudar de casa mais ainda. Em poucos dias, toda a sua vida se encontra em caixas, inacessível e pronto para ser levado embora. E então a sua casa, que comportou a sua vida por mais de dois anos se transforma em algo diferente, não mais seu refúgio, mas algum outro objeto. O silêncio da ausência dos tantos aparelhos e o peculiar odor de peixe passado das caixas de papelão tornando inegável o fato de que a casa não é mais sua e que você é, uma vez mais, um nômade.

            Estamos em um hotel agora, passando nosso último fim de semana chileno, vendo a neve nos Andes e nos preparando para o próximo grande salto. Falta pouco (e por isso estou tirando a contagem regressiva).

Frases de Caminhão Existencialista

Para tudo há uma última vez.

A Movie Script Ending - Death Cab for Cutie

            Acho que eu já comentei por aqui meu gosto particular por estórias apocalípticas (sem ser no sentido bíblico, fim do mundo mesmo, vírus mortais, guerras nucleares, coisas assim). Razão pela qual, após ter tido a idéia inteligente de ver um filiminho ontem para relaxar, escolhi com o Carol o “The Happening”, o novo filme do irregular Shamalayan.

            O filme tem mais buracos que orçamento de cidade durante campanha eleitoral, mas uma vez que você pára de buscar erros grosseiros (como a hora em que os condutores do trem dizem que perderam o contato com todo mundo, enquanto ao fundo tem gente falando no celular atrás deles) e passa a pensar no filme como a dramatização de um pesadelo, até que funciona. A Zooey Deschanel em papel sério também é um motivo para ver o filme até o final (sorry, guys, no sexy scenes). Mas a burrice mesmo é ver um filme desses na véspera da mudança. Bad timing para aliviar a tensão. <SPOILER> E o filme terminar com a parada em Paris também não precisava </SPOILER>.

            De qualquer maneira, vou ver o Agente 86 na quarta-feira, enquanto a Carol faz um girls' night out com as amigas dela do mestrado para se despedir. O filme não deve ser bom, há poucas esperanças de sexy scenes com a Anne Hattaway, mas pelo menos relaxante deve ser.

            São oito e trinta da manhã e a mudança deve chegar a qualquer momento. Ai, ai, ai...

The Final Countdown - Europe
Ainda faltam sete dias para a partida, mas amanhã já começa a mudança. Como eu estarei sem conexão internet até sexta-feira, já vou avisando que não postarei por aqui esta semana. Não que seja muita diferença das semanas anteriores, mas pelo menos agora eu tenho uma desculpa para a minha falta de assunto. Façam seus pedidos aos deuses que protegem cristais e vidros para que tudo chegue bem em Paris.
Something of an End - My Brightest Diamond
Eu tenho falado muito mal do Chile e dos chilenos por aqui, e provavelmente ainda mais se tivesse tido tempo de escrever nestes últimos dias. Mas a verdade é que, no resumo inevitável de todo fim de período, eu fui muito feliz aqui. Apesar ou por causa do país? Não sei e neste momento, pouco importa. Já é muito difícil dizer “eu fui feliz” sem ter que recorrer a justificativas ou precisões.

House of Morandé

http://www.morande.cl

Classificação:

House of Morandé é um "crash course" em restaurantes chilenos: lugar bonito, decoração boa, mas o preço é alto e a comida decepcionante. Seria ideal para ir depois de uma degustação na Viña Emiliana (esplêndida, aliás), mas serviços no Chile é isso aí. Fica no Km 61 de la Ruta 68, no vale de Casablanca. O telefone é (32)2754701.

Puerto Fuy

http://www.puertofuy.cl

Classificação:

Comida com pretensões, concessões moleculares, ambiente bem-pensado. E caro demais. Sinceramente, não vale a pena o dinheiro, a menos que você goste dessas bobagens de espuma. A comida é boa, mas tem friluras demais e não vale o preço. Fica na Nueva Costanera, 3969 e o telefone é 2088908.

El Caramaño

Classificação:

Muito mais o meu estilo: comida típica chilena, clima de boteco pé-sujo, keeping it real. Comi médula de osso, pé de porco e arrolados. Para estômagos aventureiros e resistentes. Fica em Bellavista, o melhor bairro para sair de Santiago, na Purísima 257, telefone 7377043.

Never Can Say Goodbye - Gloria Gaynor
A verdade é que as visitas me distraem do fato inescapável de que faltam duas semanas para a gente ir embora. E por isso eu fiquei meio surpreso quando o povo começou a marcar despedidas lacrimosas e essas coisas. Só este fim de semana foram duas, uma do trabalho e outra das amigas da Carol, que deve ser a primeira de várias se eu conheço a galera.

Eu confesso que, por mim, optaria pelo trocadilho infame e sairia à francesa...

Victory - Sebastian Léger

Bem, todo mundo que sabe da minha vida sabe que a Carol sempre mandou na casa mesmo. Mas agora ela tem o título de mestre para justificar o fato. Aprovação com nota alta na tarde desta sexta-feira, 13. Mandem os parabéns para ela!

(muita coisa acontecendo nesta semana e, como sempre, as mais divertidas não dá para contar)

Dois Dias em Paris

     Resolvemos relaxar das providências de partida e ver “Dois Dias em Paris”, porque nada relaxa da ansiedade pré-partida que ver um filme sobre a cidade para onde você vai, não é mesmo? Não, né. Pois bem. Vimos o filme assim mesmo, e foi engraçado, gostei da visão neurótica da cidade, dos taxistas racistas, do louco do metrô, coisas assim. Divertido. E é um filme sobre Paris sem paisagens típicas, acho que a Torre Eiffel só aparece uma vez e em um contexto até engraçado. Infelizmente, o final é muito ruim, parece que quiseram cortar o filme e ficou esquisito. Mas vale a pena e eu gosto da Julie Delpy.

In The Neighborhood - Tom Waits

      Falta um mês para eu ir embora, eu estou querendo curtir o inverno, mas minha casa se transformou em um forno.

      Eu não me recordo se eu falei por aqui e estou com preguiça de pesquisar, mas o sistema de calefação do meu prédio é meio maluco. Tão maluco que optamos por desligá-lo e comprar aparelhos elétricos para as nossas modestas necessidades invernais. Pois bem, no verão vizinhos novos chegaram no andar de cima. Gente fina, nem reclamaram do barulho que os filhotinhos da Frida andaram fazendo. Mas também gente friorenta. Eu acho que os caras devem ter um mini-zoológico tropical em casa ou estão tentando ajudar a preservar a Amazônia longe da Amazônia. Pois a minha casa está um forno só por receber a rebarba da calefação deles. Meus filhos, vocês botaram a piscina Tony, alegria da criançada, na sala?

      Embora financeiramente agradável, pois podemos deixar desligados os calefatores elétricos, o choque térmico constante não deve fazer bem para a saúde. E eu estou curioso: pensei em tocar a campainha para pedir um pouco de açúcar, ou algo clichê assim, para ver se o povo está de roupa de banho ou se dá para ver a onça. Com esse calor todo, o povo deve ter, pelo menos, uma onça de estimação.

Momento bobagem

Li aqui. Nem ia montar a capa, mas Aerial Firefighting é o melhor nome de banda que eu ouvi nos últimos tempos. Deu vontade de criar uma só para usar o nome. Ainda mais com foto do muro de Berlim.

Sad Friday Night Thought

I really miss the dancefloor

Da Série: Coisas chilenas que vão fazer falta

Acordar para esta paisagem no inverno (e a foto não faz justiça).

Da Série: Coisas chilenas que vão fazer falta

Sahne-nuss. Chocolate Nestlé e amendôas inteiras. Delícia.

And the Days Go By - Talking Heads (parte 2)

      Depois de dias seguidos de chuva, o dia amanheceu azul e a montanha nevada. Uma daquelas paisagens das quais você jamais se cansa. O frio continua e vai piorar, estão prevendo menos três para amanhã, mas como o meu novo vizinho de baixo liga a calefação no último grau, minha casa tem estado um calor extraordinário.

      As estações de esqui perto de Santiago abrirão todas antes de 10 de junho, graças às chuvas destes dias. O que significa que teremos um mês de esqui antes de partir para o verão parisiense (ô, como eu to besta!)...

      O resto é o resto e é o resto. Ainda não vendi o meu carro e faltam 39 dias para eu ir embora. Terei que baixar mais ainda o preço. E os estudantes estão protestando aqui perto do trabalho. Eu sou normalmente simpático aos estudantes nas ruas, mas os manifestantes chilenos são muito sem sal e sem graça. É uma marcha amorfa e no final passam para a pancadaria e para o vandalismo. Vejo-me obrigado a apoiar os carabineros dando porrada.

Sobre Mudanças

      Talvez alguém me questione sobre as dificuldades das constantes mudanças. Eu lhe diria que raízes conhecem um único solo e crêem que somente aquela terra pode alimentar. Eu lhe diria que não somos árvores e que fomos feitos para vagar pelo planeta perpetuamente recordando um paraíso perdido que jamais existiu. Eu lhe diria que mudar sempre é como trocar de pele e repetir os mesmos erros em outros cenários e línguas.

      Mas a verdade é que eu já não sei mais se os destinos se confundem como uma paisagem vista de um trem em movimento. Pois a vida vai rápido demais e os detalhes se perdem. E fica apenas uma mala eterna entre aeroportos, repleta de lembranças de um passado que jamais existiu.

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Evil, but in a nice way.

My Personal Evil Priest responderá suas angústias e dúvidas nesse endereço: iamevil.blog, que fica lá no gmail. Don't be evil? Ha!

Em Paris:
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